Pode um homem deixar a sua própria sombra?

Só de o movimento sionista tiver escolhido diferente hoje todo o Estado de Israel poderia estar a falar iídiche e talvez (ou não) a própria historia teria sido diferente – se que uma língua pode ter tanta importância no destino e nas vontades. Até os árabes que vivem em Israel falariam esta língua germânica, igual que agora falam hebreu só porquê é língua oficial. Certo é que o iídiche não era a língua de todos os judeus mundiais (mas sim duma imensa maioria) mas também era uma língua viva, popular, gerada dentro da comunidade (durante mais de dez séculos, o que é o mesmo que dizer que nasceu a par da maioria de línguas indo-europeias que hoje existem); a verdadeira língua dos askenazis durante toda a sua história, a que lhes acompanhava na casa e no trabalho, no campo e na cidade, a língua entre eles, a língua da vida como ele merece ser chamada. O hebreu só era a língua sacra, como é o árabe para turcos ou persas ou o latin para todos os filhos de Roma. É claro que o extermínio físico (e aliás também linguístico) de milhões de pessoas contribui a desligar o iídiche da sua comunidade (ou ao invés), mas não deixo de pensar que a aposta polo hebreu (só porque era a língua litúrgica, a língua de Deus, reservada durante séculos só às orações e estudos religiosos) não deixa de ser uma forma de matar a própria sombra. Israel conseguiu um dos mais impressionantes revivals duma língua morta e também mais uma amostra do que podem fazer as sempre polémicas planificações linguísticas (e desta não se pode dizer oculta). Contudo respondendo a pergunta do começo, seria diferente? O iídiche é falado hoje polos mais religiosos entre os religiosos, entre os ortodoxos hassídicos que continuam a rezar em hébreu mas a falar entre eles na língua que os sionistas desterraram por secular do seu povo sonhado em construção. Irónico? Eu não sei nada.

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