Arquivos » Janeiro, 2008

A fúria irresponsável

Há uma espécie de mística improvável sobre as ideias em movimento, sobre o agir constante sem cadeias que levaria a uma praxe realista na que qualquer reflexão é tomada por uma amostra de covardia. Quando berrar mais alto é a única forma de levar razão é difícil parar e sem parar é impossível pensar, e [...]

Nunca estivemos ali

Deus é tão humano que, como todos, também gosta de passear entre a gente dormida. Quando a noite chega poucas cousas calmam mais que esse estranho lume que não queima nessa mistura da presença física e a ausência de todo o demais, essa pura invenção do estranhado. Caminhar descalço e sem fazer ruído, deitar-se só [...]

Chama uma ambulância

Hoje cortei a cabeça inteira e mandei-na no correio. Neste momento estou entre a autopsia e a autoestrada, rodeado por centos de fantasmas surdos que me adiantam a toda velocidade. Talvez deveria dizer-lhe alguma cousa ao motorista. Não quero ter um acidente agora que não há pressa nenhuma. Mas a sua cabeça está na caixa [...]

Um pequeno país

Não me contam nada. Levo aqui com eles tanto tempo rompendo os colhões a fazer o que eles fam. Cantar com eles, chorar com eles, rir com eles, todo o pacote. E não me contam nada. Nenhuma história sinistra e sussurrada a salvo de qualquer vento, nenhum conto brilhante e em voz alta como [...]

A utilidade da preocupação

Levo anos sem ir ao médico e não por medo de que me diga que algo vaia mal, fatal, horrível, onde está o teu ataúde nem nada de isso. A verdade é que todo isso não me importa um caralho porque, bah, já o saberás ao seu tempo. Por muito médico e tal, a inevitabilidade [...]

Gretas

Não poupei nem uma grama de esforço e só parei quando não tinha o mais mínimo fôlego, quando as minhas pernas tremiam mais que nem vara verde. Então deixei de correr e olhei para atrás sabendo que todavia estaria aí, mantendo a distância, espreitando-me, correndo sempre ao meu ritmo. Chamando-me polos meus velhos nomes que [...]

Olá e adeus

As fórmulas de saúdo e apresentações são sempre elípticas dada a sua intranscendência natural. Excepto quando são explicitamente uma fórmula narrativa per se: o único e último até logo serve assim como um gatilho bem apertado para atirar a futura saudade (e a chama queima a fotografia lentamente e cerrando-se como por acaso arredor da [...]

A gramática da ausência

O rádio mantém-me desperta enquanto os semáforos dormem. Os edifícios opostos e enfileirados sob o meu radar esperam comigo, à caça do caçador. Só resta esperar e não fazer nada de extraordinário, respirar o imprescindível, cumprir os protocolos. A primeira regra é: isto não é um vídeo-jogo. Não há tecla para gravar a partida. F6 [...]