É doado até colher ofensa quando Brad Pitt explora que
Somos os filhos do meio da história, criados pola TV para crer que seriamos milionários e estrelas de cinema ou do rock, mas não o seremos. Fight Club.
porque, bem, ele é isso e mais outros desejos. Afortunadamente Tyler Durden só é uma alucinação assim que um personagem meta-imaginário sempre é menos suspeito. O tema é: a MTV quer fazer-me astronauta e no entanto eu varro e limpo corredores, e isso é tão frustrante? Não para o comum dos mortais, para a maioria chega só com a ideia, talvez seja uma mentira mas bem trovata servirá para sobreviver. Naturalmente é muito mais interessante e entretido formar uma seita de propaganda polos feitos mas não é isso o que fazemos. Vejamos o que ocorre onde não existem mentiras porque a Verdade está em 23 pares de cromossomas tal como Ela é.
Diziam o mesmo da miopia e da obesidade. Pensas que os teus filhos serão menos humanos se são menos violentos, iracundos, malvados? Talvez sejam mais humanos. Gattaca.
Quando Vincent Freeman (Homemlivre) e a sua cara de pão digitam dados no computador, elaborando sempre a trajectória correcta, é então que a viagem a Titã não parece de verdade tão interessante. Há um grande prestígio num projecto de tanta importância (só possível cada 70 anos) mas no tempo de Gattaca as viagens espaciais não deixam de ser rotina. Os lançamentos são efectivamente diários, e já só olhados por um Vincent sonhador que tenta parecer o mais desapaixonado possível para encaixar no seu trabalho. Ou os seus companheiros escondem qualquer emoção com a mesma intensidade ou são assim de verdade e não estão fingindo nada. Vincent parece diferente e certamente está numa missão pessoal e diferente. Não quer fazer “ciência”, não quer uma experiência única e maravilhosa, não quer ajudar o mundo. Vincent quer ser mais do que os seus genes lhe prometem (que apenas é uma precoce morte por falho cardíaco) e para isso escolhe talvez a mais absurda das possibilidades de fugida que existem: escapar literalmente do planeta. É aí onde me pergunto se o seu sonho de toda a vida de se converter num astronauta não é tanto um interesse autêntico como um desafio à discriminação genética (a última fronteira) deste mundo (e já sei que esse é efectivamente é o tema do filme) compartilhado com um Jerome cuja única missão no mundo é ajudar-lhe enquanto se toma umas copas. Um testão que sempre vai nadar até o fim porque a sua única possibilidade é arriscar sempre tudo. Num mundo que me cria para varrer e limpar corredores vou ser astronauta. Só pra foder.
A sua obra é a falsificação, e a viagem espacial só é uma escusa. Vincent e a sua promessa cardíaca despegam juntos (para nunca chegarem a essa lua) ao mesmo tempo que Jerome se converte em cinza abraçado à sua medalha de prata.
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Durante uma parte da tua vida fantasias com as tuas expectativas até um ponto no que realmente deixas de estar mais aqui que ali perdido na brêtema e agasalhado entre olhos sonhados. Sonhas um futuro no que não te deixas ir e sempre estás atento e pronto, no que não tens que pedir a ninguém que te esqueça porque já é fácil demais como para não continuar e realmente não há outra possibilidade. Depois chega um momento no que deixas de viver nesse futuro e começas a passear entre as lembranças dos dias quando estavas ocupado pensando nos nós do futuro que nunca se fiaram. Quando pensas que um mundo pequeno não deveria ser tão horrível é que em realidade as cousas iam bem porque logo já nem terás tempo para pensar em detalhes intrascendentes como a maldade de nada fora de ti.
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suponho que está bem interessar-se no bem-estar dos nenos no mais básico, na sua saúde, alimentação, seguridade, etc… mas sempre achei um exagero o zelo absoluto sobre a sua suposta integridade em inocência e bondade. Não são os cativos os mesmos que logo crescem para ser adultos? É como se a gente que jamais pensaria nem na mais mínima possibilidade de ser eles melhores pessoas (ou de fazer qualquer mínimo esforço para mudar sequer um anaco de eles próprios) tivesse toda uma cruzada para salvar o futuro (que inevitavelmente só está condenada a herdar os mesmos traumas e contradições da vida adulta como ela é). Incluso os pais mais horríveis pensam que os seus sermões criarão filhos perfeitos e que sabem exactamente a que hora desligar a tv, que vídeo-jogos devem jogar, que filmes nos que se interessar e que actividades fomentar e (outras) proibir. E penso que no fundo há muito de impossível porque todos estamos feitos para decepcionar, para cumprir só as expectativas nas que ninguém pensara, para escolher a música equivocada e a gente errada e o trabalho de merda que nunca ninguém contestara há tantos anos atrás. E dito todo isto, ainda assim, penso que também é certo que, se inevitável, que também todas essas más influencias das que devimos ser afastados influem realmente e claro que existem bons modelos e padrões, um milhão de histórias felizes, durante uns poucos anos mas chega um momento no que os tipos que poderiam escrever relatos de ânimo não tenhem o tempo preciso para isso porque, sabes, estão ocupados demais desfrutando da sua fabulosa vida e por isso e talvez só nos restam obras de desolação e desconexão com o mundo (e as que contam outras cousas só são farsas que não podem interessar nunca mais) e a relação entre elas e nós (mim) estreita-se perigosamente e acho que sim, que me transformo no que leio e as aparências não são nada mais que uma palavra porque por dentro estou tão desfeito como o único que tem importância para mim.
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No passado as cousas eram diferentes. Um nascia num sítio e era servo (ou nobre) dessa terra por sempre jamais. Seguramente eram tempos horríveis nos que nem se podia sonhar na diferença entre a miséria e a vida porque uma era a outra e outra era uma. Mas uma cousa era segura: não havia nenhuma sensação de estranheza com o lugar. Nascias num sitio, mal-vivias, morrias. A tua pátria pequena que em realidade era a única conhecida pola maioria da população. Graças à nova civilização urbana agora já podemos nascer e viver (etc) entre ruínas em construção que de qualquer jeito não significam muito mais alem do seu nome. A aldeia global é em realidade uma cidade global na que te podes sentir só e claustrofóbico em qualquer parte. Sempre há alguma cultura mais poderosa ou vital que te apanhará e fará que esqueças quem és. Sempre haverá alguma comunidade na que serás o estrangeiro ou a raça errada ou a língua secundária ou qualquer outra cousa. E quando não seja assim desejarás tanto ser diferente que deixarás que a electricidade te leve a outros edifícios nos que desconfiar permanentemente dos residentes locais que no entanto nunca parecerão ter problema de identidade nenhum. Talvez porque todos somos cúmplices, todos estamos a estafar todo mundo e também entre nós. O contágio da normalidade é inevitável.
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Quando calaremos? Ainda essa teima de imaginarmos grandes problemas que dalgum jeito atravessaríamos com sorrisos e a frase certa em cada momento. Sem problemas. É tão absurda. Nem conseguimos fiar a rotina compreensível das nossas vidas. Não é lógico pensar que as dificuldades abrissem uma caixa de recursos ocultos e habilidades secretas. Isto é simplesmente tudo. Fácil, doado, singelo, sem complicações. As pequenas ondas que nos balançam são os únicos tsunamis que conheceremos. Se os tempos modernos fossem a pior nós só iríamos na mesma direção aos poucos e sem fazer também nenhum esforço.
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Quando comecei a construir o refúgio a minha mulher sentiu uma pequena pena por mim e uma tremenda vergonha por ela própria. Nunca devera rir com as minhas histórias de diversos cenários apocalípticos. Não deveria nem ter escutado uma palavra; toda essa atenção distraída só servira para encorajar a minha toleima. E o que nunca devera fazer era permitir-me ir ao IV Festival de Cinema Zombie. O resto do mundo também estava convencido de que perdera qualquer sinal de sensatez mas já tinha mais curiosidade que pena. Sempre tinham algo divertido do que falar. Um bunker em construção, com divorcio incluído, sempre anima muito uma família, uma vizinhança… Logo chegaram as burlas. Riam de mim como se fosse o máximo parvo sobre a terra. A gastar dinheiro sem fim num projecto absurdo. Um paranóico rematado.
Quando terminou a obra ainda realizei alguns últimos desenhos bem pessoais. E convidei todo o mundo que conhecia a uma grande festa de inauguração. Decorei o bunker com os cartazes de filmes apocalípticos e a música e as bebidas fizeram o resto. Um grande sucesso. O único que faltava para ser um refúgio autêntico eram as provisões mas a sua ausência estava prevista. Quando os primeiros convidados decidiram marchar não encontraram o seu tolo anfitrião. Foi então quando descobriram que as portas só abriam desde fora e que de qualquer jeito passaria muito tempo até que isso chegasse a passar. O mundo continua a rolar? Bem, só é uma questão de perspectiva.
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Só de o movimento sionista tiver escolhido diferente hoje todo o Estado de Israel poderia estar a falar iídiche e talvez (ou não) a própria historia teria sido diferente – se que uma língua pode ter tanta importância no destino e nas vontades. Até os árabes que vivem em Israel falariam esta língua germânica, igual que agora falam hebreu só porquê é língua oficial. Certo é que o iídiche não era a língua de todos os judeus mundiais (mas sim duma imensa maioria) mas também era uma língua viva, popular, gerada dentro da comunidade (durante mais de dez séculos, o que é o mesmo que dizer que nasceu a par da maioria de línguas indo-europeias que hoje existem); a verdadeira língua dos askenazis durante toda a sua história, a que lhes acompanhava na casa e no trabalho, no campo e na cidade, a língua entre eles, a língua da vida como ele merece ser chamada. O hebreu só era a língua sacra, como é o árabe para turcos ou persas ou o latin para todos os filhos de Roma. É claro que o extermínio físico (e aliás também linguístico) de milhões de pessoas contribui a desligar o iídiche da sua comunidade (ou ao invés), mas não deixo de pensar que a aposta polo hebreu (só porque era a língua litúrgica, a língua de Deus, reservada durante séculos só às orações e estudos religiosos) não deixa de ser uma forma de matar a própria sombra. Israel conseguiu um dos mais impressionantes revivals duma língua morta e também mais uma amostra do que podem fazer as sempre polémicas planificações linguísticas (e desta não se pode dizer oculta). Contudo respondendo a pergunta do começo, seria diferente? O iídiche é falado hoje polos mais religiosos entre os religiosos, entre os ortodoxos hassídicos que continuam a rezar em hébreu mas a falar entre eles na língua que os sionistas desterraram por secular do seu povo sonhado em construção. Irónico? Eu não sei nada.
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Os meus pais nunca nos deixavam jogar a cegos não sei se por respeito ou por temor de que fora como um mal presságio – brinca com a desgraça alheia e acontecerá. Às agochadas rompíamos a proibição e durante minutos íamos apalpando e reconstruindo um mapa mental de onde quer que estivéssemos. Que nunca era longe. Era um jogo bem tonto e logo o deixávamos entre a decepção e os remorsos de romper a palavra por tão pouca diversão. E nunca aconteceu nada excepto que ainda hoje quando caminho às obscuras na minha casa sinto-me mal e um pouco velho ao pensar nos anos.
Também nunca me deixavam nadar mar adentro, sempre perto da beira, onde não cubra, podes ter uma cambra… E ainda hoje quando estou na praia… nado bem profundo sem sentir mais que felicidade por poder ir ao profundo e desobedecer com centos de braçadas aonde não deveria ir. E sinto-me bem e novo e acho que há promessas para ser rotas com mais facilidade que outras.
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