Imagina-me

Conheço o meu irmão literalmente desde sempre e contudo nem sei quem é realmente. Poderia ele imitar um acento russo e teria realmente algum interesse em fazer tal cousa? Sei lá. Não há muito de estranho nesta ignorância. Com as pessoas novas que entram na nossa vida podemos parar-nos a analisar as suas palavras e jeitos mas com os conhecidos de velho não há necessidade de desenhar nenhum rascunho desfavorecedor (ou alguma estátua embelezadora dependendo do ânimo). O molde está feito.

É mais divertido prescindir da máscaras. Não deixar-se enganar por nenhuma pessoalidade bem elaborada e tirar conclusões à cegas só da aparência e acenos que de qualquer cousa ninguém poida dizer. Sem dúvida isto é terrivelmente injusto e exagerado só para evitar que nenhuma impostura entre em mim. Mas quê? Nunca poderei compartir isto abertamente (está mal) mas, testão como som, uma olhada avonda-me. Imagino-te para sempre, dou-che ou teu verdadeiro nome e sonho com a nossa própria história de sofrimentos e até tenho saudade dos velhos dias que realmente ainda estão por chegar. E todo é tão absurdo.

Nem sei quem som eu porque nunca imagino a gente que mais conheço. Só sei dos desconhecidos porque nunca imaginei a gente que mais conheço e talvez seja certo, como nessa má canção, que todos buscamos alguém que nos atope. É tão difícil mentir sobre um próprio quando podemos deixar os demais sonhar todo o que queiram para não se decepcionarem nunca. Como poderiam quanto todo quanto sabem sobre mim é imaginado?

Megulho agora

Ás vezes esqueço que nada de mal pode passar. Nem o mar sabe quanto tempo vou continuar a nadar. Eu só vou fingir que vai ser para sempre.

Nada excepto tempo

É fácil impressionar os estranhos? Sei lá, talvez não. Talvez precises dalgum tipo de habilidade excepcional como o dom da invisibilidade (o que só me acontece na presença de moças fermosas) ou a possibilidade de viajar atrás no tempo (e só precisaria 5 segundos com o sistema de prova-erro-prova-erro… até acertar! ainda que certamente levar-me-ia um milhão de anos só para dar os bons dias porque tal é o meu desleixo).

O que é muito mais fácil é decepcionar quanto mais nos conhecemos. Apenas é questão do tempo. É por isso que o amor é a aniquilação do ego. Porque não tens nada que esconder porque já estás no fundo de todas as tuas debilidades, no que já não tens nada para impressionar e é por isso polo que deverias amar-me. Os réis mais poderosos refugiam-se em torres cada vez mais altas porque mais poder é igual a mais distância e ao invés. Agora que estamos tão perto já não tenho que pedir desculpas por nunca ter nada a dizer. Agora a palavra fraqueza deveria ser característica. Porque quando amas alguém encontras atractivo tudo quanto fai e incluso as cousas que dever-iam-te volver tolo e que sabes que estão objetivamente mal e que raio importa? É por isso que as religiões reservam o seu amor cego e incondicional, por cima da terra e dos céus, ao seu Deus para que perdoemos todos os seus defeitos porque, em realidade, há que assumir que toda a culpa é exclusivamente tua. Ego zero. Na vida real ninguém deveria pedir tanto porque entre pessoas é um tipo de enfermidade diferente no que compartilhar um trilião de desculpas até o infinito e algumas chamadas desesperadas para que venhas salvar-me.

Avatar na Praia

Poder-se-ia argumentar que as melhores versões dalgumas pessoas encontram-se em terras distantes. As viagens são uma oportunidade para sermos sinceros e abertos e não temermos nada porque todos os nossos novos vínculos e sorrisos são apenas efémeros. Não é tempo de fingir. Uma outra discussão seria se essas versões são autênticas (signifique isto o que for) ou apenas uma falsificação apropriada para o momento. Minto quando estou no meu trabalho porquê sei que tenho que volver na segunda feira ou quando estou de feiras com gente a que não lhe importam todas as parvadas que poida dizer enquanto a festa continuar? O dia-a-dia é perfeito para as cautelas enquanto os destinos exóticos são perfeitos para os relacionamentos. Mas com quem?

No filme de 2000 A Praia todos os mochileiros estão tão fartos da turistificação e comercialização do sueste asiático que decidem eles próprios criar o seu paraíso exótico e autêntico que não por acaso conta com a assombrosa população de zero pessoas locais. Ali podem começar uma vida com as suas próprias regras e dedicados a… uh, poucas regras, amor livre, drogas e em geral o que se deveria considerar uma vida não alienada polo trabalho e a rotina e, em geral, a civilização… só que sem nenhum bárbaro, rodeadas da mesma gente da que escaparam no primeiro lugar. Bem-vindo ao paraíso rebelde onde todo o mundo é tão rebelde como ti. Nunca sentirias muito com toda esta gente no teu país de origem mas agora o entusiasmo será do pouco que não será fingido. Pena que a miragem é todo o resto.

No filme de 2010 Avatar a história é bem diferente. O protagonista do filme também está alienado co mundo real mas numa escala tão gigantesca que vai mudar de sociedade, de raça, de planeta. Uma ruptura total na que o nosso herói esquecerá literalmente todo o que antes poderíamos chamar a sua vida. Agora será um Naavi, aprenderá uma língua, religião e cultura novas, namorará com a princesa local (não havia gajos interessantes antes de chegar este cara de pau com conversas tão entretidas do tipo “I see you” todo o tempo?) e dirigirá exércitos desde um dragão contra os invasores. Um pouco demais, não é? Ainda que (evidentemente) é do lado dos bons não podo deixar de pensar que o prota não é já mais a pessoa que era antes, tornou em alguma cousa diferente, em rei dos macacos azuis no que TODAS as suas experiências vitais por fodidas que foram quedam anuladas. Não resta nada dele, não só morre o seu irmão gémeo senão que toda a vida de Jake queda apagada para começar uma história nem bem convincente (porque absolutamente todas as culturas terám as suas crueldades escondidas entre os espíritos do bosque; os bons selvagens só estão um passo atrás na mesma carreira de germes, armas e aço). E para quê?

Podes ir a praia más afastada do sistema solar e ainda assim os remorsos de quem eras terminarão por te encontrar.

Ainda é cedo para desaparecer

Tudo se esquece, nada importa! Todas as minhas pequenas mortes nunca fizeram um zombi que eu próprio não conseguisse matar. É bem certo que sempre é difícil romper com quem mais confiança temos. Não importa, há um tempo para desfrutar com os mortos andantes e outro para dar-se o trabalho com os nossos zombis favoritos. Sempre é um pena dar com uma cara conhecida mas agora apenas é isso. Em caso de apocalipse o único que importa é lembrar quem segue realmente vivo e quem já só é um recordo para momentos de mais paz –se é que os houver. Se há um milhão de formas de fazer as cousas mal e só uma de fazer bem não há que se importar demais com ter escolhido alguma das piores. É hora de se despedir aginha. Não preciso de muito mais do que um sorriso para iluminar a parte do mundo que conta para mim. Um sitio pequeno porque fora daqui tudo termina e está bem e sobreviver é tudo quanto conta agora e sempre e fuck the world, fica dito, e nada importa, nada importa, nada importa excepto o nome no que escondes o teu amor.

Faíscas de nós os dous

Quando pensava que a vida era horrível as cousas iam realmente bem. Assim é a desesperação dos idiotas que sempre asfixiam com tão pouco que já logo deixam de pensar ou sentir para só estar. Agora já nada importa como antes e para algumas estranhas filosofias orientais deveria ser quase o cúmio da felicidade. Meh. Parece-me quase macabro. Se acontece igual que com as famílias então precisava era duma vida mais triste para ser realmente interessante. Mas não será assim e sempre estarei avergonhado destes dias confusos que dalgum jeito estranho são tudo quanto posso oferecer.

Isso é uma fascinação imensa e inevitável de fazer dela a única imagem no meu sonho. Não é arrepiante? Imagino-me o nosso futuro onde me perdoas, onde me perdoo, oh, estaria realmente bem. Até Charles Manson recebia cartas de amor e isso que nem chegou a matar a nadie (não ele em pessoa), o preguiçoso filho de puta. Tudo é possível, meu. Um lugar onde não quero desaparecer, um sitio desde o que conquistar um mundo para duas pessoas e onde não fai falta mais, um pequeno país privado onde esquecer que nós também somos os orfos de Laussane ainda que nós sim tivessemos um fogar que aborrecer e amar – mas já não somos de aqui senão de nenhures. Quero ser menos com ela.

Não limpes os cristais bem demais

É doado até colher ofensa quando Brad Pitt explora que

Somos os filhos do meio da história, criados pola TV para crer que seriamos milionários e estrelas de cinema ou do rock, mas não o seremos. Fight Club.

porque, bem, ele é isso e mais outros desejos. Afortunadamente Tyler Durden só é uma alucinação assim que um personagem meta-imaginário sempre é menos suspeito. O tema é: a MTV quer fazer-me astronauta e no entanto eu varro e limpo corredores, e isso é tão frustrante? Não para o comum dos mortais, para a maioria chega só com a ideia, talvez seja uma mentira mas bem trovata servirá para sobreviver. Naturalmente é muito mais interessante e entretido formar uma seita de propaganda polos feitos mas não é isso o que fazemos. Vejamos o que ocorre onde não existem mentiras porque a Verdade está em 23 pares de cromossomas tal como Ela é.

Diziam o mesmo da miopia e da obesidade. Pensas que os teus filhos serão menos humanos se são menos violentos, iracundos, malvados? Talvez sejam mais humanos. Gattaca.

Quando Vincent Freeman (Homemlivre) e a sua cara de pão digitam dados no computador, elaborando sempre a trajectória correcta, é então que a viagem a Titã não parece de verdade tão interessante. Há um grande prestígio num projecto de tanta importância (só possível cada 70 anos) mas no tempo de Gattaca as viagens espaciais não deixam de ser rotina. Os lançamentos são efectivamente diários, e já só olhados por um Vincent sonhador que tenta parecer o mais desapaixonado possível para encaixar no seu trabalho. Ou os seus companheiros escondem qualquer emoção com a mesma intensidade ou são assim de verdade e não estão fingindo nada. Vincent parece diferente e certamente está numa missão pessoal e diferente. Não quer fazer “ciência”, não quer uma experiência única e maravilhosa, não quer ajudar o mundo. Vincent quer ser mais do que os seus genes lhe prometem (que apenas é uma precoce morte por falho cardíaco) e para isso escolhe talvez a mais absurda das possibilidades de fugida que existem: escapar literalmente do planeta. É aí onde me pergunto se o seu sonho de toda a vida de se converter num astronauta não é tanto um interesse autêntico como um desafio à discriminação genética (a última fronteira) deste mundo (e já sei que esse é efectivamente é o tema do filme) compartilhado com um Jerome cuja única missão no mundo é ajudar-lhe enquanto se toma umas copas. Um testão que sempre vai nadar até o fim porque a sua única possibilidade é arriscar sempre tudo. Num mundo que me cria para varrer e limpar corredores vou ser astronauta. Só pra foder.

A sua obra é a falsificação, e a viagem espacial só é uma escusa. Vincent e a sua promessa cardíaca despegam juntos (para nunca chegarem a essa lua) ao mesmo tempo que Jerome se converte em cinza abraçado à sua medalha de prata.

Os teus inimigos

Durante uma parte da tua vida fantasias com as tuas expectativas até um ponto no que realmente deixas de estar mais aqui que ali perdido na brêtema e agasalhado entre olhos sonhados. Sonhas um futuro no que não te deixas ir e sempre estás atento e pronto, no que não tens que pedir a ninguém que te esqueça porque já é fácil demais como para não continuar e realmente não há outra possibilidade. Depois chega um momento no que deixas de viver nesse futuro e começas a passear entre as lembranças dos dias quando estavas ocupado pensando nos nós do futuro que nunca se fiaram. Quando pensas que um mundo pequeno não deveria ser tão horrível é que em realidade as cousas iam bem porque logo já nem terás tempo para pensar em detalhes intrascendentes como a maldade de nada fora de ti.